•09:57
Se a dúvida te assalta o coração

e se achas espinhoso o teu caminho;

e se te feres em acerbo espinho

e nao tens na alma paz, consolação.

Se vives melancólico, sozinho,

sem amigos, sem força de razao;

e nao tens, dos teus caros, afeição

e nem uma palavra de carinho.

E, se torna-te a vida, indiferente;

se não achas prazeres neste mundo,

não desanimes: segue para frente!

Mais tarde, com a fronte encanecida,

dirás, sorrindo, com saber profundo:

—somente o fraco nao resiste a vida.






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•20:19

- Procuro a felicidade!
O menino da favela,
olhos cheios de névoas,
perguntou:
Quem é ela?

Bati à porta
do menino rico.
Entrei.
Vi-o rodeado de brinquedos.
E de carinho.
- Procuro a felicidade!
E ele, expressão vaga,
olhos vagos
perdidos nos afagos:
Não sei quem é!

E eu não pude
esconder
a tristeza que apagou
por instantes
o brilho triste dos meus olhos tristes.

Senti, então,
que minhas mãos
podiam se estender
para socorrer;
que minha voz
podia consolar;
que meus pés
podiam me levar
pelos caminhos da vida,
pelos atalhos do mundo.

E foi assim,
somente assim,
"fazendo" ao invés
de "procurar",
e sem tempo para reclamar
do tempo,
que encontrei, dentro de mim,
a felicidade.

•19:52
Trouxeram-me um canário

numa gaiola de bambu.

E o canário cantava..

Talvez agradecesse o alpiste

e, na vasilha de barro,

a água fresca.

Mais tarde,

dei-lhe uma gaiola maior,

habilmente construída.

Tinha um estojo de madeira,

um copo de vidro...

O fundo era removível.

Eu ficara orgulhoso

da gaiola e esperara

ansioso, pela manifestação

ruidosa do pássaro

ao desferir seu canto prolongado

na matina.

Mas nada aconteceu de especial.

O mesmo canto,

a mesma saudação melodiosa

saída, tantas vezes,

da humílhima gaiola de bambu.

Passaro filósofo,

quero aprender com você

esse estilo de vida

e essa maneira de comportamento.

Que importa se a gaiola

é de ouro ou de zinco?

O importante é cantar,

e saudar a vida,

é ter a alma no peito

e a musica na alma.

Pássaro filosofo,

você é maior que o meu egoismo.

Você me ensinou

que a vida

é essa alegria interior

e que essa beleza interior

é a gente que faz,

sorrindo para a vida

e para o mundo.

Pássaro filósofo,

você me ensinou

a viver

na minha gaiola de zinco...



•19:51
Deus entrou na minha vida,
quando eu ainda
nem tinha entrado
no mundo das inquietações.

Não me façam perguntas,
duvidando das minhas afirmações
ou das minhas negações.

Deus entrou na minha vida.
E tenho dito.

•19:47


Era um desejo puro, acalentado
no coração vadio de menino:
Um chalé, na lagoa , debruçado
e eu esquecido até do meu destino.

A grama verde. Flores no quintal.
Um caniço. Um anzol. Um barco à vela.
A rede de pescar. O coqueiral.
Assim como num quadro de aquarela.

E o menino sonhando... (o pensamento
boêmio, sem rumo, velejando à toa,
no suave embalo da paisagem calma)

... O barquinho levado pelo vento,
a lua beijando as águas da lagoa,
o chalé refletido na minha alma.


•19:45
Meu vento nordeste,
meu vento brejeiro,
gari sem salário
da limpeza pública.

Meu vento nordeste,
meu sanitarista,
varredor incorrigível
do ar e da terra.

Meu vento nordeste,
ajudas o sol
a retirar
das águas do mar
o ouro branco das salinas.

Meu vento nordeste,
eu te saúdo!
Em nome da minha gente,
bendito sejas tu!


•19:31
Projetei uma casa sem janelas,
sem portas, sem telhado,
sem paredes divisórias,
sem cortinas e tapetes.

Projetei uma casa sem terreno,
sem muro ou cerca, circundando-a,
sem avenida ou rua, sem número,
sem fios de telefone, sem carteiro.

Projetei-a num lugar que nao existe,
numa colina que o vento desmanchou,
onde as flores são flocos invisíveis.

O projeto não tem assinatura
e é a mais deslumbrante arquitetura
na esplêndida paisagem dos meus sonhos.

•19:19


Hoje estou me sentindo solitário
e nostálgico, pela vez primeira.
Meu coraração é um estradivário
sem cordas e coberto de poeira

O relógio suspenso sobre o armário
parou, marcando um tempo de canseira
ou, talvez, silenciasse solidário.
Não há rosas no jarro e na roseira.

Um momento de pura abstração,
0 mar reflete 0 céu e beija o chão,
num êxtase infinito de mistério.

Sonhando — eu busco a porta do Universo,
interpenetro a luz, o espaço etéreo;
porém tudo é menor que um simples verso.


•19:10
Ruiram as colunas
e as paredes
do castelo que meus ancestrais
me deixaram.

Construção suntuosa,
nunca foi morada
de morcegos,
nem pardais
teceram ninhos nos beirais.

O velho piano
que animava os saraus,
talvez tenha ficado soterrado
na sala dos recitativos.

Desapareceram:
quadros antigamente venerados
e uma espada
que nunca fora usada

Houve pilhagem
de objetos esquecidos
e cobertos de poeira.

O vento levou,
para locais ignorados,
velhos papéis que o tempo amarelou.

Dos salvados do meu castelo
guardo reminiscências
escritas em pedaços
atávicos de memória,
e esse desejo inconsciente
de escrever meus versos.

•19:07
As mãos se fecharam
ao meu cumprimento.
Ninguém ouviu minha voz.
Ninguém correspondeu ao meu aceno.

Sinto-me imponderável
Flutuo qual folha solta
sobre um oceano de líquidos.

Eu - e o tempo!
Eu - e o espaço!
Eu - e o vazio!

Estou sozinho
Quem sou eu?
Silêncio! ...

O tempo...
O espaço...
O vazio...

•19:03


Eu quero, simplesmente, adormecer
como adormece o pássaro cativo;
e, no milagre desse entardecer
quero sonhar que estou feliz e... vivo!

Quero o tempo de um tempo indivisível.
—Apenas um momento de lazer—
para pensar um verso incognoscível,
prenhe da luz do eterno amanhecer.

Asas ao vento, à essencia indestrutível;
quero um sonho de paz, de liberdade,
que a gente sabe ser quase impossível.

Sinto-me preso à vida, aqui e além;
e acorrentado ao chão, à realidade
de ser eu mesmo e de não ser ninguem!


•18:50

Não

despetale

uma flor.



Não

machuque

uma folha,

que é mais simples

que uma flor.



Aspire

o perfume da flor;

admire

a singeleza da folha.



Ambas

nasceram do mesmo chão

e,

cada qual,

como pode,

cumpre a finalidade

de ter nascido.




•18:43
Não proponho
nem me disponho
a recolher os fragmentos
de névoas que flutuam
na imensa noite do meu sono.

Partículas de cristais
que meus olhos choraram...
Pedaços de gemidos
desagregados do meu eu...

Dentro da infinita
noite do meu tempo,
os cristais formarão pequenos sóis
e eu terei o meu amanhecer
e o meu dia sem nuvens.


•18:40
Disse
uma mentira.
Disse
uma verdade.
Disse
uma pilhéria.

Confirmou
a mentira.
Desculpou-se
da verdade.
Sorriu
da pilhéria.

É
assim que se consegue
manchar
e rasurar
as páginas sensíveis
do pequeno
grande livro
da vida!

Alguns
conseguem até
rasgá-las...

E
acabam chorando!



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•18:33


Nem sempre

um aperto de mão

significa amizade.

Nem sempre

um beijo prolongado

tem gosto de amor.


Nem sempre

um forte abraço

faz nascer uma paixão.


Nem sempre

unindo-se os corpos

unem-se tambem as almas.


Nem sempre

os corações se descobrem

no cristal da verdade.


Há miragens do deserto,

e no deserto das vidas

permeando atitudes

há situações irreais,

ilusórias, mentirosas.

que podem gerar desgraças
e produzir desespero.


•18:27


O Tempo

me deixou

perdido no futuro.


Não sei se estarei,

se estou

ou se estive.


A imponderabilidade

do meu pensamento

reclama um veículo físico

para expressar-se

metafisicamente.


Perdi o Tempo

ou o Tempo se distanciou

de mim?


Uma parte do meu eu

envelheceu.

Era.

Será?


Perdida no Tempo

a matéria se decompõe

para que o espírito

reencontre o Tempo

e seja como o próprio Tempo:

Infinito!



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•17:50
Uma casa... Uma cerca... Uma cancela...
Um caminho macio... O azul da porta...
Uma flor, sobre um jarro, na janela,
e na flor, uma folha quase morta.

Nos fundos, um jirau proteje a horta...
Serpeia o riacho entre o pomar... Singela,
e vestida de um branco que conforta,
a casa tem estilo de capela.

Uma festa de sons esvoaçantes
nos canteiros de arbustos rastejantes...
Um tronco corcomido... os manguesais...

Logo adentrando a rústica porteira,
o místico de Assis, feito em madeira,
dorme o sono de todos os mortais.
•17:48

Cansado de contemplar

as misérias da vida,

cravei meus olhos tristes

nas estrelas distances...

... as estrelas

fugiram dos meus olhos.




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•17:40
O Tempo está prenhe
de angústia.
A Terra estremece
e se contorce de dor.
Há lágrimas deslisando
pela face nua das nuvens.

A multidão
e um amontoado inexpressivo
de folhas secas
agitadas pelo vento.

Uma semente
caiu na palma da minha mão

Grito para a platéia
de folhas mortas:
É uma arvore!
Não tem folhas,
nem frutos,
nem sombra,
mas é uma arvore!

Examino-a
O futuro está
na palma da minha mão.

Esta semente
é o pão,
a mesa
o catre,
o teto,
a lenha do fogão,
o cabo da enxada,
o sonho e a riqueza.

Quem me ouve?
A resposta é um ruido
prolongado de folhas
que se movimentam
no embalo
ou no desespero do vento.

Beijo a terra sedenta.
A multidão cambaleia
no paroxismo da fome.

Afinal,
de que vale uma semente
na palma da minha mão?...


(Dica: Pare o som do blog para ouvir o som da poesia em vídeo)
•17:33
Sinto tristeza
e não sei de que.
Sinto saudade
e não sei porquê.

Quero chorar
e não tenho lágrimas.
Tenho lágrimas
e não quero chorar.

Tenho ânsia de ser e não ser;
ao mesmo tempo de ser
forma e corpo, e espírito,
e viver,
e morrer,
e ser tudo e não ser nada!


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